Ciência e Tecnologia Videocassete
22 de julho de 1981
O que dizia a reportagem de VEJA
Um novo concorrente começa a invadir a praça do som e da imagem, depois de uma rápida e fulgurante carreira pelo mercado internacional das comunicações e da eletrônica: o videocassete, esse invasor japonês que grava e desgrava tudo o que aparece na TV e leva à sua tela tudo o que se pode imaginar, começa a ocupar o seu lugar nas salas de estar brasileiras, depois de mudar os hábitos de pelo menos 2 milhões de famílias americanas. A invasão, que já tomou cerca de 50 000 casas brasileiras, espalha-se à proporção de 1 000 novos equipamentos por mês, num dos mais severos golpes já dados na legislação aduaneira, segundo a qual é proibido importá-los. Basicamente, o videocassete revoluciona e amplia o uso da TV com o mesmo impacto com que os discos e gravadores mudaram a vida do rádio. Na aparência, nas funções e até mesmo na operação, o videocassete é um gravador que, à diferença do comum, capta e transmite também a imagem. Basta enfiar um cartucho no aparelho e... plim, plim... adquire-se a mais absoluta liberdade em relação às redes de televisão do país. Em torno dos 150 000 cassetes espalhados pelo país, forma-se aos poucos um mercado de serviços. O equipamento não pode ser importado, mas já existem empresas de assistência técnica no Rio de Janeiro e em São Paulo. As fitas devem ser trazidas da calota norte, mas já se formaram sociedades de amigos, clubes, e em São Paulo a empresa Omni aluga fitas gravadas a 600 cruzeiros por fim de semana.
O que aconteceu depois
A reportagem de VEJA parece falar de uma era jurássica, mas o ¿invasor japonês¿, que aportou em terras tupiniquins em 1981, manteve sua hegemonia no mercado nacional ao longo de quase 20 anos. Já na primeira metade da década de 1980, a novidade passou de artigo de luxo para a vedete das salas de estar da classe média. Em 1986, ocorreu a primeira explosão de consumo, quando só os aparelhos nacionais venderam 200.000 unidades. O índice corresponde a apenas um terço do total ¿ o restante entrava no país pela Zona Franca de Manaus ou via contrabando, na maioria dos casos, com preços absurdos. Naquele ano, a média de televisores coloridos instalados em domicílios brasileiros era de 12 milhões ¿ enquanto o número total de videocassetes, independente da procedência, somava 1,6 milhões de unidades.
A febre do vídeo mudou hábitos e criou oportunidades de negócio. Pela primeira vez, o público tinha a liberdade de assistir ao que quisesse na hora em que quisesse ¿ sensação que seria novamente celebrada duas décadas depois, com a popularização da internet. Em torno dos clubes de vídeo criaram-se as videolocadoras ¿ primeiro, pequenas lojas de bairros e, depois, grandes redes que se espalharam por todo o Brasil. Em 1986, o número de estabelecimentos multiplicou-se: dos 1.800 registrados em 1985, saltou pata 4.500. Em 1991, já eram 8.000. Também virou mania registrar momentos públicos e privados com câmeras e fitas magnéticas. Famílias gravavam o aniversário dos filhos, pequenas empresas cobravam para transformar partos e casamentos em filmes e os tribunais passaram a aceitar filmagens como provas em julgamentos.
A indústria do vídeo tornou-se um negócio milionário. Em 1987, o faturamento da bilheteria dos cinemas igualou-se, pela primeira vez no Brasil, ao das vendas de fitas VHS: 90 milhões de dólares cada. Três anos depois, o vídeo arrecadou 400 milhões de dólares, enquanto os cinemas faturaram 138 milhões. Um ano após a abertura econômica, em 1991, 25% dos 30 milhões de televisores coloridos do país contavam com videocassetes ¿ resultado da redução dos preços. A chegada da TV por assinatura no Brasil, em meados da década de 1990, não abalou o reinado do vídeo. A verdadeira ameaça veio com o DVD, novidade lançada no Japão em 1996. No Brasil, aterrissou em dezembro de 1997 -- e as vendas emperraram. O problema não era tanto o preço, 1.200 reais em média, mas a falta de títulos no mercado.
Em 2000, o DVD estava presente na casa de 60.000 brasileiros, enquanto o videocassete ocupava a sala de 18 milhões. Para acelerar a substituição, as indústrias reduziram os preços e os estúdios aumentaram os títulos disponíveis. Deu certo. No primeiro semestre de 2002, o total de aparelhos de DVD vendidos no país superou o de videocassetes ¿ que entraram em processo de extinção. A partir daí, o sintoma mais evidente da derrubada do ¿invasor japonês¿ tornou-se perceptível nas videolocadoras. Em 2003, foram lançados no país 516 novos filmes em fitas VHS e 1.000 títulos em DVD. Dois anos depois, as fitas de vídeo mantiveram a marca, enquanto os lançamentos em DVD saltaram para 1.425. Em 2007, foram 1.998 títulos lançados em DVD ¿ e, pela primeira vez, nenhum em fitas VHS. Os dados são da União Brasileira de Vídeo (UBV).
A partir de 2007, quando atingiram sua maturidade no mercado, os aparelhos de DVD já podiam ser comprados por 100 reais. Mas, se o reinado do videocassete durou quase duas décadas, o prazo do DVD deve ser mais curto. A indústria já selecionou o Blu-ray, tecnologia de alta-definição da Sony, como seu sucessor natural ¿ depois de uma longa batalha que derrubou o formato HD-DVD, da Toshiba. Mas tanto o DVD quanto o Blu-ray têm um adversário de peso pela frente ¿ a Internet. Grandes empresas entraram de cabeça neste nicho, como a Apple, que investe pesado no mercado de distribuição de títulos pela web. Um número crescente de filmes em alta-definição circula livremente pela rede, e já existem aparelhos que conseguem baixá-los sem precisar de computador. O palco principal da evolução parece não estar mais na estante da sala ¿ mas, sim, no mundo virtual da Internet.











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